Inventora de absorvente dérmico estudava durante internações do filho na BA
A baiana que criou um absorvente dérmico para ajudar gastrostomizados, inspirada pelas necessidades do filho, revelou que usava todo o tempo que tinha livre para estudar, incluindo enquanto acompanhava o jovem no hospital.
João Pedro Leal, de 20 anos, tem paralisia cerebral e sofria com constantes internações. Sem rede de apoio contínua, Nilza Carla Leal estava sempre presente, com livros e apostilas a tiracolo. Hoje, ela é pesquisadora, técnica de enfermagem, bióloga e está cursando um mestrado.
A carreira atual é apenas uma das duas “viradas de chave” na vida da baiana. Primeiro, ela precisou deixar o emprego e o curso de administração em recursos humanos, para cuidar do filho. Quando o jovem nasceu, ela tinha 27 anos.
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Até o parto, João Pedro seria uma criança típica. Foi a demora no nascimento que, segundo Nilza Carla, provocou a paralisia cerebral.
“Nós identificamos algo logo no início. Ele tinha dificuldade na amamentação e tremia muito. No mesmo dia do parto, a médica recolheu ele do meu colo e levou pra UTI [Unidade de Terapia Intensiva] neonatal da maternidade. Só depois de cinco meses que veio o diagnóstico de paralisia cerebral”, contou.
Nilza Carla Leal e os filhos
Arquivo Pessoal
“Para mim, foi tudo tranquilo, porque eu queria ter um filho. Quando você tem uma festa de aniversário, você não cria expectativa se você vai ganhar presente ou não dos seus convidados. Se vier um presente, ótimo, se não vier, está tudo bem. Então, eu só queria ter um filho para poder ter uma família”, destacou.
Em decorrência do diagnóstico, veio a necessidade de fazer uma gastrostomia em João Pedro, quando ele ainda era bebê.
💡O médico Luiz Almeida, gastroenterologista do Hospital Mater dei Emec, explica que o procedimento cria um canal que liga a parede abdominal ao interior do estômago, por onde é inserida uma sonda para que os pacientes sejam alimentados e recebam medicamentos.
A ação é uma alternativa para a sonda nasal, que normalmente é indicada a pacientes que precisam se alimentar dessa forma por um período curto de tempo.
O problema é que o local onde é feita a incisão precisa de atenção constante, pois ferimentos podem se formar com o vazamento de líquidos e/ou atrito da sonda com a pele.
Foi ao ser acusada de maus-tratos por causa desses ferimentos, que a pesquisadora se viu na necessidade de buscar capacitação e, posteriormente, uma solução para o problema. E assim nasceu o JO+, dispositivo que oferece proteção à pele, higiene e qualidade de vida para pacientes e cuidadores.
Atualmente, além de Nilza Carla, João Pedro também conta com os cuidados da irmã mais nova, Maria Júlia Leal, de 14 anos. Um orgulho para a mãe.
“Eu me orgulho do desafio de ter um filho deficiente e dizer não a toda a sociedade, quando diziam que eu era louca por buscar os direitos dele, me orgulho da minha segunda filha, que hoje é uma pessoa que me apoia, e eu tenho orgulho de ter voltado a estudar”.
Conheça o JO+
Absorvente dérmico foi criado na Bahia para evitar ferimentos em pacientes gastrostomizados
Arquivo Pessoal
O absorvente dérmico foi criado por Nilza Carla como um alternativa adequada para substituir meios já usados atualmente na medicina, como gazes e adesivos.
“O objetivo é cobrir a pele, evitar o atrito do aparelho e, antes do suco gástrico tocar na pele, ele absorve, e muda de cor à proporção que ele vai absorvendo. Assim, a pessoa vê o momento de troca”, destacou a baiana, em entrevista ao g1.
O processo de elaboração do dispositivo começou em 2016. Ao longo desses 10 anos, foram feitos protótipos e testes em campo, além da oficialização da patente. Nesse processo, João Pedro e mais três pessoas já usaram o JO+.
O equipamento foi batizado com esse nome, em homenagem ao filho de Nilza Carla e em referência aos outros pacientes que podem ser ajudados.
Material importado
Baiana criou dispositivo para proteger pacientes colostomizados
Arquivo Pessoal
Durante os estudos de concepção do absorvente dérmico, a pesquisadora chegou à escolha de uma substância flexível, chamada poliuretano, para matéria-prima.
O material veio da China, por intermédio de um amigo brasileiro que vive no país. Porém, apesar ter importação, o custo de produção do JO+ por unidade é de R$ 4,90.
Nilza Carla pontua que gastrostomizados podem chegar a precisar de seis absorventes por dia, dependendo das necessidades do paciente.
Atualmente, a pesquisadora busca por financiamento para iniciar a produção em escala e a comercialização. Os projetos para o futuro incluem a construção de uma fábrica para que possa fazer sua própria matéria-prima, o que iria tornar o dispositivo mais barato.
“Hoje, o que dificulta o JO+ estar no mercado é que os editais que nós participamos têm um critério de faturamento anual de R$ 100 mil. E a gente ainda não fatura porque a gente ainda não vende. Isso desclassifica a gente, isso faz com que a gente fique batalhando com amigos, porque a gente tem que pagar patente todo ano, tem que pagar CNPJ, e eu não tenho esse recurso”.
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Fonte: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/28/mae-que-inventou-absorvente-dermico-para-gastrostomizados-na-bahia-estudava-em-hospital.ghtml
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